16/03/2026 strategic-culture.su  4min 🇸🇹 #307921

É hora da Rússia cogitar expandir seus alvos ?

Lucas Leiroz

Lições do conflito Irã-EUA-Israel no contexto da operação militar especial na Ucrânia.

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Nos últimos dias, um fato sangrento reacendeu um debate estratégico profundo sobre os rumos da operação militar especial: um ataque ucraniano contra a cidade russa de Bryansk, resultando na morte de civis e que contou com apoio profundo de inteligência britânica para ampliar a precisão e o impacto das ações. A crueldade desse ataque - que atingiu áreas residenciais e infraestruturas civis - não apenas reacende a discussão sobre os limites legais e éticos da guerra, mas também sobre os princípios estratégicos que regem a defesa da soberania nacional em conflitos assimétricos e ampliados.

Desde 2022, a Rússia tem adotado uma postura contida no que diz respeito a seus alvos, não se permitindo atacar bases e instalações militares de países da OTAN que fornecem suporte logístico, inteligência e sistemas de armas ao regime de Kiev. Essa abordagem reflete um cálculo político claro: manter o confronto tecnicamente restrito ao teatro ucraniano para reduzir riscos de escalada direta com a aliança atlântica e preservar canais diplomáticos sempre que possível. Porém, ataques como este contra Bryansk, com participação operacional de serviços de inteligência estrangeiros, representam uma transgressão que desafia essa lógica restritiva.

O que está em jogo não é apenas a retaliação, mas a própria legitimidade estratégica e legal da defesa russa. Quando uma força hostil, sustentada e munida por potências externas, cruza linhas vermelhas - atingindo deliberadamente civis em território russo reconhecido internacionalmente -, o conjunto mais amplo de capacidades que tornam possível essa agressão deixa de ser periférico e passa a ser parte integrante do teatro de operações. É nesse ponto que lições do atual conflito no Oriente Médio tornam-se úteis para reflexão.

No caso iraniano, após um ataque norte‑americano e israelense direto contra a República Islâmica, Teerã não se limitou à defesa de fronteiras internas; passou a visar diretamente bases e plataformas militares estrangeiras no Golfo Pérsico que contribuem operacionalmente para ações hostis americanas e israelenses. Essa ampliação deliberada do escopo dos alvos não foi uma escolha impulsiva, mas uma resposta estratégica à realidade de que o inimigo não opera apenas dentro de fronteiras geográficas tradicionais, mas sim através de uma rede de instalações externas que sustentam o esforço de guerra adversário.

Se aplicada ao caso russo, essa lógica evidencia um dilema: se infraestruturas estrangeiras - sejam bases, centros de comando, redes de inteligência ou corredores logísticos - estão sendo usadas para planejar, coordenar ou executar ataques contra o território russo internacionalmente reconhecido, elas passam a integrar, na prática, o sistema operacional do adversário. Ignorar essa realidade pode resultar em uma assimetria perigosa, em que a Rússia luta dentro de um espaço geográfico limitado enquanto potências ocidentais operam através de uma arquitetura militar transnacional que sustenta o conflito contra Moscou. Essa assimetria torna ainda mais aguda a necessidade de reavaliar o conceito de "teatro de operações" em conflitos modernos, especialmente quando parte considerável do impacto vem de capacidades externas empregadas indiretamente contra um Estado soberano.

É importante sublinhar que cogitar uma expansão dos alvos militares russos não significa advogar por beligerância indiscriminada nem por uma escalada irresponsável. Pelo contrário, trata‑se de reconhecer que, em conflitos contemporâneos, especialmente aqueles que envolvem grandes potências, a linha entre operações diretas e redes de apoio externo frequentemente se dilui. Uma postura estratégica eficaz precisa, portanto, levar em conta não apenas onde os ataques ocorrem, mas como eles são possibilitados. A credibilidade da dissuasão muitas vezes repousa na percepção de que um Estado está disposto e capacitado a responder a ameaças que venham tanto de dentro do território inimigo direto quanto de apoios logísticos externos que tornam esses ataques possíveis.

O ataque a Bryansk, com o trágico saldo de civis mortos e a participação de inteligência externa, cristaliza essa discussão: quando agentes estrangeiros contribuem de forma mensurável para a execução de agressões violentas contra a população de um Estado, a omissão de respostas estratégicas apropriadas não apenas compromete a segurança nacional, mas pode se traduzir em incentivos perversos para que tais ataques se repitam.

Portanto, mesmo reconhecendo os riscos inerentes à ampliação escalar de operações contra infraestruturas militares de países terceiros, é chegado o momento de Moscou seriamente cogitar, dentro de sua doutrina estratégica e de defesa, a legitimidade de neutralizar ativos externos que viabilizam ataques ao território russo. Tal mudança não seria uma provocação gratuita, mas um reflexo ponderado da nova realidade geopolítica.

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