07/01/2026 strategic-culture.su  6min 🇸🇹 #301160

Sem cristandade, sem ciência: A libertação intelectual dos judeus asquenazitas e os limites do determinismo racial

Bruna Frascolla

A questão da relação entre culturas religiosas e ciência, hoje, costuma ser abordada com uma mistura de Fim da História e determinismo étnico-racial.

Escreva para nós: infostrategic-culture.su

Ultimamente, temos visto aqui na SCF que a ciência moderna tem sua origem no mundo católico ocidental, que se desenvolveu com muita força também no mundo protestante (que competia com o católico) e, depois, no mundo comunista ateu. Por outro lado, o mundo islâmico fez excepcionais avanços matemáticos e tecnológicos na Idade Média, mas as contradições entre a ciência e o Corão fizeram com que a ciência, e não o Corão, fosse defenestrada (atitude contrária à do mundo protestante, que, enxergando contradições entre o livro sagrado e a ciência, em geral prefere virar ateu).

Essa questão da relação entre culturas religiosas e ciência, hoje, costuma ser abordada com uma mistura de Fim da História e determinismo étnico-racial. A ciência teria surgido na civilização "judaico-cristã" ocidental porque somos superiores. Esse "somos" é ambíguo, porque amiúde se alude à proporção de judeus asquenazitas que ganham Nobel e explica-se que o seu DNA lhes dá uma inteligência superior. (De fato, o racismo científico foi substituído pelo determinismo genético e a um fetiche pela hereditariedade do QI.) O fato de serem judeus asquenazitas serve para explicar por que os países de língua árabe, que também têm uma significativa população judaica, não são grandes ganhadores de Nobel. Afinal, nem os judeus ibéricos (sefarditas), nem os judeus do mundo islâmico (mizrahim) são asquenazitas. Por um lado, pretende-se que é antissemitismo dizer que os asquenazitas descendem dos cazares que se converteram ao judaísmo e não têm parentesco com Jesus; por outro, pretende-se que só os judeus asquenazitas tenham uma genética peculiar que os torna superiores aos brancos não-judeus e aos judeus não-brancos. Não é algo que faça muito sentido.

Toda essa conversa de que a genética superior explicaria os avanços científicos também não faz sentido. Se a Europa tem judeus asquenazitas desde a Idade Média (ocasião da conversão dos cazares ao judaísmo), por que a ciência moderna não se desenvolveu primeiro entre eles ? Não vale dizer que é por causa da perseguição da Igreja Católica, já que o DNA não muda com a conversão, e já que a fé judaica sempre teve escritos e estudos à parte. A Polônia era cheia de judeus, sempre foi um país periférico, e não obstante a primeira personagem-chave da ciência moderna é um cristão velho polonês (Nicolau Copérnico).

Uma resposta para isso é o próprio obscurantismo da ortodoxia judaica, que faria os sunitas parecerem iluministas. Eis o que relatava Israel Shahak (1933 - 2001), de origem polonesa judaica, sobre a vida intelectual dos judeus asquenazitas da Idade Média até a emancipação:

"As autoridades rabínicas da Europa oriental ainda resolveram proibir todos os estudos não-talmúdicos, mesmo quando não se pudesse encontrar nada específico que merecesse um anátema, por competirem com o tempo que deveria ser gasto ou estudando o Talmude, ou ganhando dinheiro - o qual deveria financiar os estudiosos talmúdicos. Só sobrou uma brecha, a saber: o tempo que até um judeu pio deve passar na privada. Nesse local impuro, estão proibidos os estudos sacros, e portanto é lícito ler História, desde que seja escrita em hebraico e completamente secular, o que significa que deve ser toda dedicada a assuntos não-judaicos. (Só podemos imaginar que aqueles poucos judeus da época que, sem dúvida tentados por Satanás, desenvolveram um interesse pela história dos reis franceses vivessem reclamando de prisão de ventre para os vizinhos.) Como consequência, até duzentos anos atrás, a vasta maioria dos judeus [asquenazitas] estava totalmente às escuras não só sobre a existência da América, mas também sobre a história judaica e o estado dos judeus contemporâneos, e estavam bem felizes em continuar assim." (Jewish History, Jewish Religion, p. 24)

Ou seja, os ancestrais de Einstein, Freud, Marx, Chomsky, Polanyi, Edith Stein, Lise Meitner, Trotsky, Sholem Aleichem e de um monte de cientistas premiados pelo Nobel não sabiam da existência da América no século XVIII porque o rabinato não deixava e eles obedeciam. Sem dúvida, uma grande perda de potencial humano. Isso serve para refletirmos sobre o quanto a teologia importa para o desenvolvimento dentro de pessoas da mesma sociedade, já que no século XVIII os ancestrais cristãos de qualquer camponês estavam mais informados sobre o mundo do que os ancestrais de tantos intelectuais e homens de ciência que começaram a aparecer no século XIX.

Se for verdade que o QI é determinante para promoção da ciência por um dado grupo étnico, e que os judeus asquenazitas têm o maior da Europa (se não do mundo), então os judeus asquenazitas deveriam ter iluminado o mundo com a descoberta da ciência moderna. Não obstante, que fez isso foi a cristandade ocidental, que conservou, pelo menos até o século XX (quando começaram a aparecer críticas à "ciência branca"), o apreço pela universalidade no âmbito da ciência (no âmbito religioso, os protestantes a rechaçaram).

Toda a culpa do atraso dos judeus asquenazitas pré-XIX deve ser buscada no próprio judaísmo, isto é, na religião abraçada e liderada (regionalmente) por judeus asquenazitas. Como mencionamos acima, os judeus nunca deixaram de ter sua produção bibliográfica. Na Idade Média, apareceu a Cabala, cujos escritos eram redigidos tanto por judeus sefarditas quanto por judeus asquenazitas. A coisa fica tanto mais curiosa porque os alquimistas e esotéricos, que tiveram contribuições importantes para a ciência moderna, eram influenciados pela Cabala - não obstante, entre eles não se conta, que eu saiba, nenhum judeu asquenazita. Newton era um protestante esotérico estudioso da cabala que descobriu a gravitação universal e a lei da gravidade. Paracelso era um ocultista da Renascença que é considerado o pai da toxicologia. Desde os sacerdotes egípcios e de Pitágoras, não é incomum a mística andar de mãos dadas com a astronomia e a matemática. Incomum é o caso dos judeus, que antes da emancipação não tinham nenhuma contribuição substantiva do gênero para dar ao mundo, por mais que enfiassem a cara em estudos.

Dada tamanha estagnação, de admirar é que os judeus asquenazitas tenham se libertado. Essa libertação coincidiu com a emancipação civil: assim, eles não precisariam se batizar para serem reconhecidos como cidadãos plenos. Assim, o liberalismo foi o primeiro contato que muitos judeus tiveram com o universalismo, e houve a demanda por criar um judaísmo reformado que tivesse lugar numa típica sociedade liberal protestante. Já na Europa Oriental, os judeus pobres, concentrados na Polônia, continuaram sob o jugo de uma opressiva autoridade rabínica até se rebelarem e se tornaram marxistas, trocando as barbas do profeta religioso pelas do profeta cientificista.

Diante do avanço material da cristandade ocidental, facilmente relacionado à Revolução Científica, seria impossível os judeus viverem num gueto mental por muito tempo. Só se virassem comunidades rurais como os Amish, mas aí seria difícil juntar muito dinheiro para financiar estudos talmúdicos.

Disso tudo concluímos que a história que põe os judeus como grandes gênios do ocidente só pode ser escrita caso se deixe a maior parte de fora, pois os judeus asquenazitas viveram a maior parte do tempo na ignorância induzida por suas próprias lideranças religiosas, e que só foram salvos desse estado por causa do convívio com a cristandade.

 strategic-culture.su