
Bruna Frascolla
Sionismo cristão é mais do que ser cristão e defender a ideia de um Estado judeu na Terra Santa; é crer que essa etnia tenha esse direito dado pelo Velho Testamento.
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No dia 17 de janeiro de 2026, apareceu no Twitter uma nota conjunta dos patriarcas e chefes de igreja de Jerusalém condenando o "sionismo cristão" como uma ideologia perniciosa. Os mais importantes patriarcas e chefes de igreja são, naturalmente, o Patriarca Latino (católico) e o Patriarca Ortodoxo Grego, ou seja, o Cardeal Pizzaballa e Teófilo III. Embora a maioria dos cristãos palestinos seja ortodoxa, é evidente que, numa nota conjunta, quem tem maior peso global é o Cardeal Pizzaballa. Não obstante, o Twitter e o site do Patriarcado Latino não mencionavam a nota; tampouco a EWTN (agência de notícias católica com sede nos EUA cuja afiliada em português é a ACI Digital). Por outro lado, a nota foi divulgada por pessoas importantes como Francesca Albanese, relatora da ONU, e Munther Isaac, o pastor luterano de Belém. Last, but not least, o embaixador dos EUA em Israel respondeu à nota, defendendo o "sionismo cristão", e foi divulgado também por Ted Cruz.
Eis o teor:
"Os Patriarcas e Chefes de Igreja na Terra Santa afirmam, diante dos fiéis e do mundo, que o rebanho de Cristo está confiado, nesta terra, às Igrejas Apostólicas que trouxeram seu ministério sagrado por séculos com firme devoção. As atividades recentes, empreendidas por indivíduos locais que promovem ideologias danosas como o Sionismo Cristão, enganam o público, semeiam confusão e prejudicam a unidade do nosso rebanho. Essas empreitadas encontraram favor entre certos agentes políticos, em Israel e alhures, que buscam promover uma agenda política que pode prejudicar a presença cristã na Terra Santa e no Oriente Médio em geral.
"A Sagrada Escritura nos ensina que 'nós, embora sejamos muitos, somos um só corpo em Cristo e membros uns dos outros' (Rom. 12,5). Reivindicar autoridade fora da comunhão da Igreja é ferir a unidade dos fiéis e sobrecarregar a missão pastoral confiada às igrejas históricas na própria terra onde Nosso Senhor viveu, ensinou, sofreu e ressuscitou dos mortos.
"Os Patriarcas e Chefes de Igrejas também notam com preocupação que esses indivíduos foram bem recebidos em níveis oficiais, tanto local quanto internacionalmente. Tais ações constituem interferência na vida interna das igrejas e desconsideram a responsabilidade pastoral das quais estão investidos os Patriarcas e Chefes de Igreja em Jerusalém.
"Os Patriarcas e Chefes de Igrejas em Jerusalém reiteram que só eles representam as Igrejas e seus rebanhos em assuntos referentes à vida cristã religiosa, comunal e pastoral na Terra Santa.
"Que o Senhor, que é o Pastor e Guardião das almas, garanta sabedoria para a proteção do Seu povo e a salvaguarda para as Suas testemunhas nesta Terra Santa."
A assinatura é "Os Patriarcas e Chefes de Igreja em Jerusalém". Não há um site conjunto para postar todas as notas, e no site do Patriarcado Latino há uma porção de notas conjuntas recentes sem assinaturas nominais. Há uma nota de 2017 com assinaturas nominais, e, além dos óbvios (católico romano e ortodoxo grego), há uma porção de outras igrejas orientais antigas (copta, etíope etc.), mais duas protestantes (episcopal e luterana). Seria exaustivo ver quantas dessas igrejas têm websites: o importante é que a Igreja Ortodoxa Grega divulgou a nota em seu site.
Que terá se passado entre os patriarcas ? Foi na revista digital Compact que apareceu alguma explicação. O veículo dos EUA e atrai leitores católicos antiliberais - um público em expansão nos Estados Unidos, que tem em JD Vance um expoente. É também um público muito conectado, que certamente viu a nota no Twitter e celebrou-a. Pode-se dizer que a surrada fórmula neocon, que combina liberal-conservadorismo com sionismo e anticomunismo, não tem vingado entre os mais jovens.
Assim, um capitão da reserva das IDF chamado Lazar Berman, "correspondente de assuntos cristãos" do Times of Israel, redigiu um artigo para a Compact intitulado " Como a internet caiu numa suposta condenação do Sionismo Cristão". Embora o título seja enganoso - porque a nota é real -, no artigo há informações relevantes. Primeiro, que a nota apareceu no site do órgão católico Custodia Terrae Sanctae e foi removido. Segundo, que basta um patriarca ou chefe fazer um rascunho de nota e estipular um prazo para ela ser publicada caso não haja objeções. Lazar Berman dá a entender que o Pizzaballa estava viajando e não viu o rascunho a tempo e, de fato, no Twitter do Patriarcado Latino há uma postagem do dia 20 na qual se diz que o cardeal está viajando desde o dia 17, a data da nota. Terceiro: "O principal ímpeto para o pronunciamento, segundo as fontes de duas igrejas, é uma briga liderada pelo Patriarca Ortodoxo Grego contra um grupo de cristãos israelenses que se chamam Vozes Cristãs Israelenses e Movimento Águias de Cristo. O líder do movimento, Ihab Shilyan, foi um oficial de carreira das IDF e encoraja ativamente os jovens cristãos a se alistarem também. Ele foi recentemente bem recebido pelo evento anual para líderes cristãos do presidente Isaac Herzog e se encontrou várias vezes com [o embaixador dos EUA] Huckabee."
Numa rápida pesquisa, descobre-se que Ihab Shilyan é de etnia armênia, e a maioria dos armênios é cristã sob a autoridade do patriarcado grego ortodoxo. A fonte é nada menos o Twitter oficial das IDF, que o usa como poster boy dos soldados cristãos para incentivar o recrutamento. É notório que, dos não-judeus, só os drusos se empolgam com o exército israelense. Muçulmanos e cristãos viram traidores ao se alistarem para o exército que oprime os seus familiares. Se a embaixada dos EUA em Israel está tratando esse cidadão, será que ele vai começar a recrutar "cristãos sionistas" nas Américas e África?
Quanto à nota em si, questão fica em aberto: se ela teve tanta repercussão - a ponto de ser respondida pelo embaixador dos EUA -, por que Patriarcado Latino ficou quieto, em vez de desmenti-la ? Um palpite simples é que o Cardeal Pizzaballa não discorda do conteúdo da nota, ainda que porventura a ache inoportuna. Em geral, a Igreja Católica é firme na doutrina e ensaboada na política. Por isso, toda vez que algum Papa afirma que só há casamento entre homem e mulher, a imprensa "descobre" que a Igreja Católica é contra o casamento gay. O papa Francisco telefonava todo dia para seu compatriota pároco em Gaza. Pizzaballa se deixa fotografar com um keffiyeh (aquele lenço preto e branco dos palestinos). Não faltam gestos de simpatia pelos palestinos; o mesmo não se pode dizer dos israelenses. Ainda assim, a Igreja Católica não costuma dar declarações bombásticas sobre o dito sionismo cristão.
Lazar Berman comenta: "Católicos críticos de Israel promoveram a nota no X, declarando que a principal figura católica na Terra Santa, o patriarca latino Pierbattista Pizzaballa, rejeitou definitivamente o Sionismo Cristão. Infelizmente para eles, Pizzaballa não fez nada disso." Ora, é óbvio para qualquer pessoa minimamente informada sobre o catolicismo que ser católico implica, em tese, rejeitar o sionismo cristão como uma heresia. Se porventura existirem católicos "sionistas cristãos", têm o mesmo perfil dos católicos que acreditam na reencarnação: leigos pouco comprometidos com a religião e que jamais chegariam ao cargo de cardeais.
Há pouco tempo, o papa Leão XIV condenou a prática de barriga de aluguel. A rigor, ele não precisaria condená-la, porque a barriga de aluguel usa ou fertilização in vitro, ou inseminação artificial, que já são condenadas pela Igreja. Não obstante, as contundentes falas de Leão XIV foram muito oportunas. Seria ridículo esperar por um pronunciamento de Leão XIV ou Pizzaballa que "rejeitasse definitivamente" a ideia de que Deus deu um pedaço de terra para os judeus pelos séculos dos séculos; que quem abençoar o Estado de Israel será abençoado e quem amaldiçoar será amaldiçoado; e que os judeus precisam "voltar" para aquele pedaço de terra e construir o Terceiro Templo para acelerar a volta do Cristo. Por certo, seria muito oportuno que o papa condenasse o relativismo moral etnocêntrico do sionismo dito cristão, bem como sua incompatibilidade com os ensinamentos do Cristo.
Agora, a simples repercussão não-desmentida no Twitter bastou para que o embaixador dos EUA se manifestasse. Leiamos o que diz:
"Em resposta ao pronunciamento das igrejas não-evangélicas em Israel, publiquei o seguinte. Espero que vocês leiam de maneira orante:
"Amo os meus irmãos e irmãs em Cristo de igrejas litúrgicas tradicionais e respeito suas opiniões, mas não creio que nenhuma seita da fé cristã deva reivindicar a exclusividade ao falar pelos cristãos ao redor do mundo, nem presumir que só há um ponto de vista no que concerne à fé na Terra Santa. Pessoalmente, sou parte de uma tradição evangélica global e crescente que acredita na autoridade da Escritura e na lealdade de Deus em manter as suas alianças. Isso inclui a sua aliança com Abrão e o povo judeu. Minha fé cristã está construída sobre o fundamento do judaísmo e, sem este, a cristandade não existiria. Sem a cosmovisão judaico-cristã, não haveria Civilização Ocidental e, sem Civilização Ocidental, não haveria Estados Unidos. O pensamento de que Deus é capaz de romper uma aliança é um anátema para aqueles que abraçam a Sagrada Escritura como a autoridade da igreja. Se Deus poderá ou irá quebrar a sua aliança com os judeus, então que esperança os cristãos poderiam ter de que ele manteria sua aliança conosco ? Rótulos como 'Sionismo Cristão' são, com demasiada frequência, uma maneira pejorativa de menosprezar crentes da igreja livre, dos quais há milhões pelo planeta. Os cristãos são os seguidores de cristo e um sionista simplesmente aceita que o povo judeu tem direito a viver em sua pátria antiga, indígena e ancestral. É difícil para mim entender por que todos os que usam o nome de "cristão" não iriam ser também sionistas. Não é um compromisso com um governo ou política específicos, mas com a revelação bíblica tal como dada a Abraão, Isaac e Jacó. Em minha fé, certamente há espaço para quem atua de maneira diferente de mim, e eu gostaria que houvesse espaço nos corações de outros corpos eclesiásticos para mim. Precisamos nos unir naquelas verdades que devem ser aceitas, tais como a santidade da vida, o ato sagrado do casamento, a autonomia do indivíduo, o desejo de elevar todos os homens e aliviar o sofrimento, e a crença de que a graça é um dom de Deus para todos nós. Por favor compartilhe com outras pessoas e 'ore pela paz de Jerusalém'."
Esta nota se autorrefuta, pois mostra que sionismo cristão é mais do que ser cristão e defender a ideia de um Estado judeu na Terra Santa; é crer que essa etnia tenha esse direito dado pelo Velho Testamento. É ignorar Paulo, quando diz que não há mais judeu nem grego. E, sem entrarmos em teologia, é defender uma antropologia maluca e anacrônica, sem base na ciência, segundo a qual o povo judeu se manteve biologicamente estável desde o tempo de Cristo, sem conversões para dentro e para fora do judaísmo. É a crença errônea de que o judaísmo rabínico e a cabala existem desde os tempos de Abraão.
Resta saber se Huckabee está tramando o envio de pessoas burras e amorais à Terra Santa para assassinar crianças e roubar terras em nome do cristianismo.