
Bruna Frascolla
Postel é uma expressão sintética da Renascença, que foi marcada pela redescoberta do ocultismo e pela sua apropriação por parte das elites.
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No último texto, vimos que provavelmente Guillaume Postel (1510 - 1581), um cabalista e ex-jesuíta louco, é o primeiro sionista cristão da História, e que o sionismo cristão é fruto da introdução da cabala no cristianismo. Dado que tal movimento vingou no protestantismo, vale a pena dar uma olhada na relação de Postel com o protestantismo.
Postel era benquisto pelos protestantes. Era amigo e correspondente do erudito Melanchton, braço direito de Lutero. Sua obra mais ambiciosa, De orbis terrae concordia, foi impressa em Basileia, então um importante centro do protestantismo no qual tinha muitos amigos. E ele influenciou algumas correntes, também: a crermos em William Bouwsma, autor de Concordia Mundi: The Career and Thought of Guillaume Postel, suas ideias influenciaram uma seita protestante semi-secreta chamada Família do Amor (ou Familia Caritatis), que viria a influenciar os quacres. Ao listar as modestas influências que seu pensamento profético teve, Bouwsma cita "sectários alemães, certos escritores menores da Inglaterra elisabetana e poucos seguidores na França, e até um sábio ocasional como [o luterano] Tycho Brahe." Se considerarmos que entre os "escritores menores" na certa estão o todo-poderoso John Dee e seus adeptos, e que os adeptos da Família do Amor eram uns herméticos em posições importantes na corte elisabetana, podemos concluir que a importância dos delírios de Postel não foi pequena no mundo protestante e na Inglaterra em particular.
Não obstante, Postel nem cogitava se converter ao protestantismo. Numa de suas obras (Alcorani seu legis Mahometi et euangelistarum concordiæ liber), considera até mesmo que os protestantes são semelhantes aos muçulmanos - e isso estava longe de ser um pensamento extravagante, já que à época não faltavam correntes unitaristas que considerassem, tal como os muçulmanos, que Jesus era um homem muito importante, porém não filho de Deus. Nisso, Postel retoma a visão medieval de reconhecer os muçulmanos como hereges arianistas, não como seguidores de uma religião diferente.
Podemos dizer que o mais importante do catolicismo para Postel, e que era indispensável, era a sua universalidade. Postel queria fazer com que todo o mundo se reunificasse sob uma única religião, a qual seria sediada em Jerusalém, o único lugar do planeta no qual a "Shekhinah" (uma emanação feminina de Deus segundo os cabalistas) se manifestava plenamente. Isso seria uma reunificação, porque para Postel todas as tradições religiosas do mundo bebem da mesma origem e apontam para a mesma fonte.
Se o leitor for um apreciador de René Guénon e do tradicionalismo, sentirá que já viu esse filme antes. Para os tradicionalistas seguidores de Guénon, corrente importante à qual pertencem lideranças importantes do neoconservadorismo como Steve Bannon e Olavo de Carvalho, mas também o destacado defensor da multipolaridade Alexandre Dugin, o Ocidente perdeu-se em algum momento da Idade Média, quando rompeu seus vínculos com a Tradição primordial; e, para restaurar-se, precisa buscá-la no Oriente, onde está viva.
De fato, Postel antecipava Guénon na Renascença. Eis como Bouwsma resume essa faceta do seu pensamentol: "A teoria começa com a proposição de que a verdade é eterna; logo, tem de ter sido expressa para o primeiro homem. Assim, desde Adão, escondida na 'língua sagrada', foi transmitida oralmente (daí a cabala) para para Enoque. Este 'sétimo príncipe do mundo', do qual se escreve que caminhou com Deus, redigiu ao menos parte da tradição [...] e passou para os descendentes, e assim alcançou Noé. Após o Dilúvio, com a separação dos filhos de Noé a repovoar o mundo, a tradição se dividiu em várias correntes, e foi neste ponto que a distinção entre as tradições comuns e esotéricas apareceram. No Oriente, um ensinamento comum foi transmitido por Sem e sobrevive nas Escrituras Hebraicas. No Ocidente, ambos os tipos de tradição também encontraram expressão: o ensinamento comum foi representado por druidas, e a tradição esotérica, pelas sibilas." No fim das contas, tudo é Tradição, e tanto faz sibila grega ou profeta hebraico.
A ideia de Postel de que o suposto conhecimento tradicional dos druidas era tão válido quanto o do cristianismo serve para embasar o seu ataque a Roma, que vimos no último texto. Os gauleses seriam melhores do que os romanos, entre outros motivos, porque lá a Tradição estava melhor conservada, de modo que um "cristianismo" de druidas seria melhor do que o cristianismo romano. Dado o forte sentimento antirromano de Postel, bem como o seu profundo relativismo religioso, podemos entender que a opção pelo catolicismo era de natureza pragmática: para alcançar a sua finalidade universalista, mais vale interferir na grande e mais antiga instituição do mundo, que também tem uma finalidade universalista, do que em uma das várias e efêmeras igrejas e seitas protestantes, por mais receptivas que lhe sejam.
Ora, o tradicionalismo é contra o protestantismo, pois Guénon enxerga-o como algo menos do que uma religião: seria uma pura moralidade burguesa privada de Tradição. Ainda assim, Postel consegue ter muito em comum com o protestantismo e o tradicionalismo ao mesmo tempo. Um traço partilhado pelos três é a oposição ao status quo católico. Todos os três concordam que, em algum momento da Idade Média, o cristianismo foi corrompido e hoje resta somente uma sombra do que outrora foi. A diferença é que, enquanto os protestantes abandonam o universalismo e resolvem fazer uma igreja nova que com a finalidade de restaurar o cristianismo primitivo, Postel e os tradicionalistas ocidentais preferem se infiltrar na Igreja Católica para tentar comandar esse transatlântico.
No caso de Steve Bannon, os Arquivos Epstein até mostraram que ele articulava com Epstein para derrubar o Francisco, e que se sentia elogiado quando Epstein o considerava um "judeu honorário", em vez de um cristão. Quanto ao falecido Olavo de Carvalho, ele não só importava boatos da direita dos EUA contra Francisco (como o da Pachamama), como denegria vários papas, o próprio papado, e até incitava os católicos a agredirem verbalmente um cardeal conservador como D. Odilo Scherer. Olavo de Carvalho, claro, era um sionista que visava a sionizar os católicos brasileiros.
Ao cabo, Postel é uma expressão sintética da Renascença, que foi marcada pela redescoberta do ocultismo e pela sua apropriação por parte das elites. Isto gerou uma verdadeira revolução cultural anticatólica, e a cabala (que significa "tradição" em hebraico) entra nesse pacote. Assim, tanto o Tradicionalismo quanto o Protestantismo, na medida em que são renascentistas, bebem da cabala, que é a origem do sionismo: daí o fio ligando Postel a Olavo de Carvalho. Não obstante, esse espírito renascentista não é determinante, já que nem todo protestante e nem todo tradicionalista é sionista.