16/04/2026 strategic-culture.su  10min 🇸🇹 #311264

 Quels sont les enjeux de la « bataille pour la Hongrie » ?

Hungria: Orbanismo sem Orban ou revolução colorida ?

Raphael Machado

O erro fundamental de Orban foi ser excessivamente moderado e centrista em relação às estruturas de poder do Ocidente.

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Viktor Orban voltará a ser um parlamentar húngaro como outro qualquer. A vitória dos partido Tisza e seu líder Peter Magyar nas últimas eleições húngaras pôs fim a 16 anos de governo do Fidesz. O resultado não foi tão acachapante - o Tisza levou 52% dos votos, enquanto o Fidesz levou 40% dos votos - mas por causa das regras eleitorais criadas pelo próprio Orban, essa pequena maioria do Tisza garante a ele mais de 2/3 do Parlamento, dando aos vitoriosos poder suficiente, inclusive, para mudar a Constituição.

Como em outras eleições anteriores, Budapeste votou desproporcionalmente pelo candidato visto como mais "progressista", mas ainda assim Magyar venceu na maioria das províncias periféricas, o que não pode ser explicado simplesmente por votos de absenteístas ou novos eleitores; certamente, parte razoável de antigos eleitores de Orban decidiu votar por Magyar.

Em alguma medida, não é surpresa. A própria candidatura de Magyar representa uma ruptura interna no Fidesz, fruto de uma decepção com os rumos do partido. Magyar foi membro ativo, ocupante de cargos importantes, no Fidesz por mais de 20 anos, mas rompeu com o partido após o escândalo de um perdão presidencial que abalou a confiança do povo húngaro em Orban.

Trata-se de um caso no qual a então presidente da Hungria Katalin Novak assinou um perdão presidencial a uma vice-diretora de um orfanato condenada por acobertar o abuso sexual de crianças órfãs pelo próprio diretor da instituição. Esse escândalo, por si mesmo, foi suficiente para abalar o status pró-família do Fidesz.

Esse perdão, que provavelmente ocorreu por causa de algum elo numa rede de clientelismo político, pôs em evidência a profundidade da corrupção húngara sob Orban, cuja estrutura política operava segundo uma lógica de patronato que não está muito longe das práticas políticas tradicionais do Brasil.

Aqui é importante recordar que, Orban, em suas origens era tão somente um político liberal mainstream, já tendo sido, inclusive, primeiro-ministro em outra ocasião sem muita polêmica. Por um longo tempo, aliás, o partido nacional-populista da Hungria era o já desaparecido Jobbik, com o Fidesz fazendo as vezes de partido liberal-conservador pró-Bruxelas que só era "diferente" pela inércia própria da política europeia oriental, onde temas migratórios, de gênero e ambientais são muito recentes e contam com rechaço da população.

As credenciais populistas de Orban só foram adquiridas gradualmente após a crise de 2008, numa lógica de defesa dos interesses nacionais contra crises causadas pela especulação financeira internacional e pela globalização. A partir daí, começam a ser absorvidos também aspectos do discurso do Jobbik, e a Hungria, já sob Orban, se transforma no baluarte de um patriotismo populista conservador que seria modelo para outros partidos que lutavam para ascender.

E, de fato, até a crise pandêmica, o modelo Orban, economicamente heterodoxo, estava funcionando razoavelmente bem. A Hungria cresceu de 2010 a 2019-20 aproximadamente 4% ao ano, acima da média europeia oriental e até mesmo de vários países estagnados da Europa Ocidental. O país recebeu grandes investimentos e alcançou o pleno emprego.

A taxa de natalidade aumentou. O Estado subsidiava a preservação da cultura tradicional húngara dentro e fora do país, razão pela qual a diáspora é fanaticamente pró-Orban.

A política externa era diversificada e, em alguma medida, até mesmo multipolarista. Muito se fala na proximidade entre Orban e Netanyahu, que é real, mas a Hungria também era o país mais próximo de países como Irã, Rússia e China, esta última tendo altos investimentos industriais no país de Orban.

O conjunto de políticas socioculturais e externas de Orban, porém, o colocou em rota de colisão com Bruxelas. Diferentemente da época em que Orban foi primeiro-ministro pela primeira vez, os últimos 15 anos viram a fanatização da eurocracia em cada um dos pontos de sua dogmática: da imigração aos direitos de minorias sexuais, passando pelo imperativo da russofobia.

Não havia nada de revolucionário nas políticas de Orban. Ao contrário, elas eram, simplesmente, a política de "bom senso" de um político da velha guarda europeia oriental, marcada pelo pragmatismo e, em alguma medida, pelo oportunismo. As relações Hungria-Rússia não são fruto de qualquer alinhamento ou submissão de Orban, mas uma característica da geografia e da história regional.

Por que Orban perdeu, então ? Podemos começar pelas causas endógenas.

A realidade é que com tanto tempo no poder, pequenos escândalos foram se acumulando e minando a imagem pública de Orban. Orban governava a Hungria como um "chefe de clã" que ajuda os amigos e prejudica os inimigos - como eu já disse, uma política muito familiar aos brasileiros, e que no longo prazo pode reduzir a eficiência do Estado. Mas quando a essas pequenas práticas clientelistas você soma escândalos que abalam o próprio pilar de "defesa dos valores tradicionais" de Orban, a situação fica muito mais grave.

Costuma-se atribuir causas econômicas à impopularidade de Orban, mas já apontamos que pela maior parte do seu governo a economia húngara foi pujante. Ela simplesmente nunca se recuperou da crise pandêmica. Entre outros motivos porque o governo de Orban, apesar de estar industrializando o país e alcançando o pleno emprego, deixou de lado o objetivo de elevar o patamar da produção industrial húngara, ou seja, promover o crescimento vertical e não apenas o crescimento horizontal. Nesse sentido, a economia húngara crescia porque havia mais gente empregada, mais produção e mais gente consumindo, mas sem incremento do valor agregado dos bens.

Aliás, é importante apontar que, na medida em que a Hungria alcançou pleno emprego, Orban começou a importar mão-de-obra imigrante para continuar essa estratégia de expansão econômica horizontal.

Para não falar no fato de que a própria disputa eleitoral foi um "vale-tudo", mas todas as tentativas do governo de partir para o "ataque pessoal" contra Magyar (incluindo dossiês, vazamentos de áudios, coisas antigas, etc.) acabaram saindo pela culatra, porque sinalizaram desespero pra população.

Mas parece muito claro que os fatores exógenos se sobrepuseram aos endógenos para garantir a derrota de Orban.

Em primeiro lugar, é um fato que Bruxelas trava uma guerra econômica contra a Hungria de Orban. Após a aprovação de uma lei anti-ONG por Budapeste, uma corte europeia considerou-a ilegal, e Orban reagiu dizendo que na Hungria valeriam as decisões do Judiciário húngaro. Bruxelas reagiu, entre outros meios, através do bloqueio de transferência de fundos para a Hungria, travando a sua recuperação econômica após a dobradinha entre crise pandêmica e conflito ucraniano. Naturalmente, considerando que a decisão vem de dezembro de 2022, isso também se deu, em grande medida, ao papel de Orban em bloquear ou postergar diversos tipos projetos e pacotes de ajuda visando apoiar a Ucrânia ou prejudicar a Rússia.

Em cima disso, Bruxelas impôs multas diárias milionárias por causa de cercas fronteiriças que existem, também, em vários outros países europeus para dificultar os fluxos migratórios.

Para piorar, no contexto do conflito ucraniano, Bruxelas pôs pressão na Hungria, mais do que em qualquer outro país europeu, por causa do petróleo e gás russos, visando diminuir o fornecimento por todos os meios necessários, mesmo sendo óbvio que isso prejudicaria a economia húngara. E em conluio com a Ucrânia, foram organizados atentados terroristas contra o sistema Druzhba, que representava um dos principais meios de abastecimento energético da Hungria.

Bloqueio de fundos, multas astronômicas e sabotagem energética foram as fórmulas usadas por Bruxelas para liquidar o desenvolvimento econômico húngaro. O eleitorado, seja na Europa ou em qualquer outro lugar, é imediatista. Ele não vê as causas profundas dos problemas, apenas os problemas enquanto tais.

A campanha de Bruxelas foi além da economia, atingindo também o campo de batalha cibernético. Além de assessoramento em TI à campanha de Magyar, o Meta, provavelmente a pedido de Bruxelas, eliminou o alcance das postagens de políticos do Fidesz, amplificando o alcance de Magyar e seus aliados.

Mas alguns dos fatores exógenos problemáticos devem ser atribuídos ao próprio Orban. Especificamente, a insistência em vincular sua imagem a Netanyahu e a Trump no pior momento possível. A reputação de Israel, hoje, está liquidada por causa de Gaza e do fanatismo sionista que ameaça a prosperidade e a segurança até mesmo da Europa, e o governo Trump havia acabado ameaçar a Europa de guerra por causa da Groenlândia. Ainda assim, a Hungria insistia em sediar o CPAC, cujo objetivo era transformar o campo populista europeu num apêndice do trumpismo e em receber J.D. Vance às vésperas das eleições.

De qualquer maneira, para além de vincular sua imagem a Trump e a Netanyahu no pior momento possível, o erro fundamental de Orban foi ser excessivamente moderado e centrista em relação às estruturas de poder do Ocidente. O inimigo, sempre que tem a oportunidade, ataca com todas as armas e visa anular o inimigo do tabuleiro. Orban estava em posição de, simplesmente, retirar a Hungria da OTAN e até mesmo da União Europeia. Ao não fazê-lo, ele deu a Bruxelas as armas para influenciar a política interna húngara pavimentando o caminho de sua própria derrota.

De posse do poder, é necessário liquidar completamente o inimigo do jogo político e tornar categoricamente impossível qualquer vitória futura dos inimigos - mudanças na Constituição, nas normas eleitorais, nas normas de construção de partidos, etc., estão aí para isso. Mas mais importantemente, na medida em que Orban reconhecia os eurocratas como seus inimigos, seu objetivo principal deveria ter sido anular o seu poder através da retirada da Hungria dessas estruturas internacionais. Se o Reino Unido conseguiu, porque a Hungria não conseguiria?

Mas e quanto a Magyar ? O que ele fará a partir de agora?

Diante da vitória de Magyar tem havido duas reações comuns no campo soberanista: aqueles que insistem que nada vai mudar, aqueles que proclamam o fim da Hungria.

Profecias são despiciendas na análise política. Só podemos lidar com os fatos tal como eles vão se apresentando e prognosticar em cima deles.

O primeiro fato é que Magyar foi, de fato, eleito com apoio direto e indireto das estruturas internacionais globalistas e do ecossistema ongueiro. Magyar deve a essas forças a sua vitória e a conta será cobrada.

O segundo fato é que Magyar conduziu uma campanha de viés conservador, anti-imigração e anti-Ucrânia, em linha com o sentimento majoritário da população húngara.

O terceiro fato é que 90% do petróleo e 85% do gás da Hungria vêm da Rússia.

O quarto fato é que apenas 1 dia após a vitória eleitoral, Bruxelas já impôs 27 condições para devolver à Hungria o seu dinheiro, entre as quais estão desbloquear o pacote de ajuda de 90 bilhões de euros pra Ucrânia, bem como uma nova rodada de sanções contra a Rússia, além de reforçar o "combate à corrupção", revogar decisões e normas que estejam em contradição com decisões das cortes europeias (incluindo diretrizes relativas à imigração e a questões LGBT), e assim por diante. O objetivo é um "desorbanização" rápida do Estado húngaro.

O quinto fato é que em seus primeiros discursos, Magyar já declarou tanto uma postura mais "liberal" e "progressista" em relação às questões sexuais e de gênero, quanto também uma postura pragmática em relação à Rússia e à China.

A partir dos fatos, o único prognóstico possível é de que o governo de Peter Magyar tenderá a ser mais conformista e alinhado a Bruxelas do que o governo de Orban, mas não deixará de haver arestas a serem aparadas e pontas soltas, de modo que os eurocratas não podem esperar demais desse novo governo. O próprio Atlantic Council, recentemente, defendeu num artigo que Bruxelas e Kiev precisavam ser realistas em relação a Budapeste, sem esperar muitas concessões e mudanças, independentemente de quem mandasse no país.

Para piorar a situação de Magyar, que já vai ter que caminhar sobre o fio da navalha, ele foi eleito numa movimentação popular artificial que, muito claramente, foi um voto de protesto anticorrupção - precisamente o tipo mais instável de público. Entre seus eleitores há eurocéticos e eurofanáticos, progressistas e socialistas além de neofascistas e tradicionalistas, ucrainófobos e ucrainófilos, bem como todas as outras combinações possíveis de eleitores.

Sem base político-eleitoral própria e estável e tendo que manobrar entre contextos internacionais completamente desfavoráveis, a tendência é que o apoio de Magyar vá desaparecendo rapidamente. As reformas anti-Orban nunca serão suficientes para o público mais antifa e cosmopolita de Budapeste. E toda mudança no status quo sociocultural de Orban será "demais" para os conservadores, nacionalistas, etc. Bruxelas talvez não goste do conciliacionismo de Magyar com Moscou, mas boa parte do eleitorado tende a se incomodar caso dinheiro húngaro comece a fluir para Kiev.

Orban, enquanto isso, só precisa fazer a sua autocrítica e aguardar.

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