
Eduardo Vasco
Caso a oposição vença as eleições, a aproximação com a Rússia será ainda mais prejudicada pelo inevitável realinhamento com os Estados Unidos.
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Brasil e Rússia firmaram, entre fevereiro e março, uma série de acordos bilaterais que ampliam a cooperação estratégica em áreas como energia, agricultura, ciência e tecnologia.
No setor energético, os países avançaram em memorandos de entendimento voltados à exploração de petróleo e gás, além de iniciativas em energia nuclear para fins pacíficos. Também foram discutidas possibilidades de cooperação em energias renováveis, com foco na troca de tecnologia e na realização de projetos conjuntos.
Na área agrícola, os acordos envolvem a ampliação do comércio de fertilizantes russos, essenciais para a agricultura brasileira, bem como a abertura de mercados para produtos brasileiros. Técnicos dos dois países também estabeleceram protocolos sanitários e fitossanitários para facilitar exportações, além de programas de pesquisa voltados ao aumento da produtividade e sustentabilidade no campo.
Já em ciência e tecnologia, foram firmadas parcerias entre instituições de pesquisa para o desenvolvimento de projetos em inteligência artificial, biotecnologia e exploração espacial. A cooperação educacional também ganhou destaque, com intercâmbio acadêmico e programas conjuntos de formação.
Mas uma pergunta que fica é: diante das pressões dos Estados Unidos e da possibilidade de mudança de governo após as eleições de outubro, quais chances o Brasil tem de realmente cumprir com esses acordos com Moscou?
Fernando Antonio Leite Goulart é representante da Diretoria de Avaliação da Conformidade adjunta à Comissão Permanente de Recursos do Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia), vinculado ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, responsável por garantir a qualidade, segurança e confiabilidade de produtos, serviços e medições no Brasil. Goulart atua na Coordenação Geral de Articulação Internacional do Inmetro, com foco em negociações internacionais.
À SCF, ele critica a russofobia do Ocidente. "A russofobia da UE e dos EUA é algo posto e não recente, somente redivivo", diz. Mas na visão dele, "o relacionamento entre o Brasil e a Federação Russa é algo que traz ganhos mútuos". E continua: "talvez, por questões de sensibilidade política, neste momento, não irá parar nas primeiras páginas dos jornais. Mas, continuará existindo, na velocidade adequada ao momento, e às necessidades de ambas as nações."
Ele acredita que o governo do presidente Lula está agindo com cautela nesse final de mandato, com uma eleição difícil pela frente, para não desagradar os Estados Unidos e seus aliados dentro do Brasil:
"Os acordos, em vigor, permanecem. A prudência aconselha que tenhamos mais uma visão reativa ao que está ocorrendo e que façamos o caminho ao caminhar, avaliando e sopesando todas as nossas ações. Não acredito em grandes iniciativas diplomáticas, principalmente a partir do fim de abril, quando o calendário eleitoral brasileiro se impõe. O Brasil e, principalmente, o presidente Lula têm uma tradição conciliadora, veremos nossa diplomacia operar com bastante efetividade. Acredito ainda que nos movimentaremos muito nos bastidores, como todos estão fazendo, e evitemos espetaculizar as ações, não dando lenha para a fogueira de vaidades estadunidenses."
Ainda em sua avaliação, os canais de comunicação de alto nível entre Brasil e Rússia permanecem abertos e o governo irá usá-los "de acordo e com a a intensidade que for necessária". Em caso de reeleição, Goulart acredita que o fortalecimento do chamado "Sul Global" e dos BRICS deverá ser a tônica de um novo governo Lula, embora não signifique que abandonará as parcerias com o Ocidente. Em sua opinião, o resultado da guerra atual entre Irã, EUA e Israel vai definir o ritmo da política de aproximação do Brasil com a Rússia. Se a coalizão EUA/Israel não prevalecer nesta campanha e se o Irã aguentar, as relações de poder na região e no mundo mudarão. Em consequência, a questão ucraniana deverá se resolver.
"Se os EUA não obtiverem sucesso na atual guerra do Irã, imagino que EUA, UE e Rússia cheguem a um acordo para pôr fim à guerra na Ucrânia. Em se estabilizando estes conflitos, de acordo com este cenário, imagino que, principalmente por conta dos interesses brasileiros no Sul Global e nos BRICS, as relações com a Rússia se aprofundem. A velocidade dependerá, como sempre, de administrarmos os humores da potência hegemônica em nosso hemisfério", afirma.
"Se EUA/Israel derrotarem o Irã, o cenário global será outro e nossas ações serão muito mais cautelosas, tendo de perscrutar sempre os humores da potência hegemônica", completa.
Segundo Tito Lívio Barcellos, mestre em Estudos Estratégicos da Defesa e Segurança e membro do Centro de Investigação sobre Rússia, Eurásia e Espaço pós-soviético (CIRE - UNESP), a execução dos acordos bilaterais assinados em fevereiro vai depender do consenso "entre a elite política, burocrática (e isso inclui o corpo diplomático) e a elite econômica brasileira". O Brasil é muito dependente dos Estados Unidos e da União Europeia e isso limita as relações com a Rússia, ainda que ela seja fundamental para o fornecimento de fertilizantes nitrogenados e óleo diesel.
"Embora exista muito potencial de ampliação no intercâmbio comercial e financeiro russo-brasileiro (nuclear, energia, infraestrutura ferroviária, indústria de base, comunicações etc.), o 'fator Trump' e a antipatia dos europeus a Moscou pode causar temor entre empresários e diplomatas brasileiros que podem optar por manter uma abordagem mais cautelosa", afirma à SCF.
Ele tem, portanto, uma avaliação semelhante à de Goulart. "Praticamente os principais líderes europeus se curvaram e se submeteram aos caprichos de Trump acredito que a nossa classe econômica e diplomática não pretende arriscar uma postura combativa", continua.
Além das pressões externas, o governo Lula também sofre pressões internas que dificultam a expansão das relações com a Rússia, em sua avaliação. "O fator interno também não ajuda, visto que cada vez mais a política externa brasileira é sujeita a prestação de contas internas para setores partidários e político-ideológicos da população."
Barcellos lembra ainda: "estamos testemunhando parlamentares de direita da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara dos Deputados cobrando posturas do governo brasileiro em relação à China, à causa Palestina, à Venezuela, a Cuba e ao Irã, quase obrigando que a nossas relações exteriores tenham que escolher um lado. Estreitar relações muito profundas com a Rússia também pode estar sujeito a essas cobranças internas."
Barcellos diz sentir um certo temor do governo Lula de sofrer fortes retaliações pelas relações com a Rússia. "Lembre-se que o Brasil teve muitas relações comerciais e investimentos de alto valor agregado no Iraque baathista, na Líbia de Kadafi e no Irã. Os EUA e seus aliados euro-atlânticos destruíram os três."
Goulart e Tito Lívio concordam que, caso a oposição vença as eleições, a aproximação com a Rússia será ainda mais prejudicada pelo inevitável realinhamento com os Estados Unidos.