10/05/2026 strategic-culture.su  5min 🇸🇹 #313487

Sobre o esgotamento da « democracia » brasileira e do seu defensor por excelência, o Pt

Eduardo Vasco

Como o PT pode ser tão ingênuo ao ponto de seus líderes defenderem tão apaixonadamente o sequestro dos direitos do parlamento pelo STF, fazendo as vezes de papagaios da propaganda imperialista a favor do judiciário?

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Assim como Luís Bonaparte assumiu poderes ditatoriais em nome da república, a "defesa da democracia" é o artifício pelo qual o imperialismo estabelece hoje, gradualmente, um Estado bonapartista no Brasil. Primeiro, uma aparente autonomia do Estado sobre as classes, em que o judiciário, o MP, a PF ou o governo fingem aplicar medidas de "justiça social" contra os ricos, chegam até mesmo a punir capitalistas individuais ou camadas inferiores da burguesia (nacional), levando os "democratas" ao delírio, ao mesmo tempo em que a alta burguesia (internacional) se beneficia da anulação de sua concorrência e da rapinagem da riqueza nacional produzida pelos trabalhadores, em que organizações populares são perseguidas e favelados são exterminados, em que ergue-se um aparato orwelliano de vigilância e polícia. Assim o Estado "acima das classes" manipula e ri da cara de todos, sobretudo do pequeno-burguês "progressista".

Além disso, como nos períodos pré-bonapartistas, as contradições com o legislativo são cada vez mais agudas e o parlamento é usurpado de suas funções, os parlamentares perdem liberdades e direitos - muito por culpa dos próprios parlamentares, que assim vão entregando as prerrogativas da instituição de poder original da burguesia para uma camarilha de parasitas de toga. Mas o judiciário não pode ser o agente central de uma ditadura. A burguesia ainda procura o seu Bonaparte no poder executivo, por isso toda a campanha da última década contra Lula e Bolsonaro - a este último ela até deu uma chance para mostrar as suas aptidões, mas tudo o que revelou foi sua incompetência.

Mas, e se ela não encontrar um Bonaparte ? O homem forte terá de vir de baixo, das bases ? Se a burguesia não encontrar uma solução bonapartista, a solução fascista surgirá com mais força do que nunca. De qualquer forma, como a experiência alemã demonstrou, na época do imperialismo o bonapartismo não é mais que um governo provisório para dar lugar ao regime fascista em um período de intensa crise social. E, como inúmeros exemplos fornecidos pela história, as próprias vítimas do fascismo estão contribuindo para a implantação de uma ditadura no Brasil. Primeiro, urram com a perseguição aos bolsonaristas. Depois, festejam o cerco ao "congresso inimigo do povo" (indicando que o STF, portanto, estaria ao lado do povo). Não percebem que a burguesia está disposta a suprimir a sua própria democracia se isso deixar o caminho livre para a supressão da democracia operária.

Como o PT pode ser tão ingênuo ao ponto de seus líderes defenderem tão apaixonadamente o sequestro dos direitos do parlamento pelo STF, fazendo as vezes de papagaios da propaganda imperialista a favor do judiciário ? Deveriam, ao contrário, estar preocupados com a falta de controle popular sobre o judiciário, com os ataques do Estado contra qualquer forma de representação popular, inclusive a própria meca do carreirismo pequeno-burguês, o Congresso Nacional. Da forma como estão as coisas, dentro de alguns anos os parlamentares do PT, PSOL e PCdoB não terão Congresso Nacional, nem assembleias legislativas, nem câmaras municipais para fazerem carreira e desfrutar de bons salários. Ficaram horrorizados quando Eduardo Bolsonaro sugeriu fechar o Congresso, mas não percebem que essa é a consequência natural de toda a política que estão apoiando há anos, sobretudo quando o grande capital imperialista já não tem mais o controle de outrora sobre o Congresso Nacional, após a falência de PSDB e DEM e, em menor medida, do MDB.

As direções pequeno-burguesas dos partidos de esquerda e das organizações populares transformam-se em velocidade acelerada em meros apêndices do aparato coercitivo do Estado pensando combater o fascismo e o autoritarismo. Ao mesmo tempo, a política que aplicam e suas ilusões constituem obstáculos para a própria luta democrática - e, mais ainda, para a luta pela emancipação definitiva dos trabalhadores.

A social democracia do século XIX era uma força de fora do regime burguês que se aproveitava das condições democráticas que ainda vigoravam para arrancar da burguesia melhorias na vida dos trabalhadores. Com a eclosão da I Guerra Mundial, a social democracia se tornou uma força do próprio regime burguês, muitas vezes o principal acessório da burguesia para enganar e explorar os trabalhadores. Após o início da fase neoliberal do capitalismo, a social democracia passou a tirar até mesmo as migalhas da boca dos trabalhadores e virou um inimigo inconciliável, como são Keir Starmer e Olaf Scholz. No Brasil, o que seria o equivalente tardio da social democracia - o nacionalismo burguês de base proletária, o PT - segue o mesmo padrão: fundado como um partido de fora do regime, integrou-se ao regime para melhorar a vida dos trabalhadores e agora apresenta uma tendência central de ataques diretos contra os trabalhadores, contra a sua própria base. Essa política é um tiro no seu próprio pé, na medida em que ela se adapta à nova forma que está assumindo o regime político - e, essa nova forma sendo uma ditadura de tipo fascista, a primeira vítima seria o próprio PT. A política da direção do PT, portanto, enfraquece o próprio PT. É uma política suicida.

Esse desfecho revela que, ao ir por esse caminho - que, no final das contas, é o único caminho pelo qual pode ir um partido reformista -, o PT também está começando a se esgotar enquanto representação da classe operária. Tanto para os trabalhadores, cujo ciclo de experiências e aprendizados com o PT tem passado por todas as etapas que a classe operária passa com um partido reformista, e que agora está se completando; quanto para a burguesia, que não consegue mais prover um crescimento econômico real que lhe permita fazer concessões aos trabalhadores, e cujo regime político precisa adotar formas fascistas para extrair dos trabalhadores até a última gota de suor. O PT vai se tornando desnecessário para a burguesia. Também se tornará para a classe operária.

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