Sábado agora dei minha palestra no Congresso "Filosofia do Futuro: Ideias e Significados", organizado no âmbito da Universidade Estatal de Moscou Lomonosov. Participaram a maioria dos principais filósofos e acadêmicos de filosofia da Rússia, especialistas e acadêmicos de alguns outros campos do conhecimento, bem como alguns intelectuais estrangeiros convidados de mais de 30 países.
O evento contou ainda com apoio do Estado russo, o que é raro. Não é tão comum que um Estado contemporâneo invista tanto apoio oficial num congresso de filosofia, a ponto do próprio presidente enviar uma mensagem sobre a importância da filosofia, além de mandar como emissários um vice-primeiro-ministro e membros da administração presidencial.
Apesar da pauta ser "aberta" - o futuro - inevitavelmente a maioria das reflexões acabavam por envolver temas de "filosofia da tecnologia" e, naturalmente, IA. Não foi um evento de "doutrinação". Ali havia entusiastas moderados da IA, céticos e tradicionalistas. Provavelmente entrarei em mais detalhes em uma resenha mais ampla que farei sobre o evento, mas foi interessante acompanhar a perspectiva chinesa sobre o tema, além de considerações que lidavam com reflexões sobre a natureza e universalidade ou não-universalidade do tempo, críticas pós-heideggerianas à IA, análise e categorização das futurologias da ficção científica, uma introdução à ontologia orientada ao objeto, esforços de apropriação arqueofuturista da tecnologia, uma apresentação da visão islâmica sobre a IA, e assim por diante - ademais, como as sessões eram simultâneas, tenho certeza de que perdi várias palestras interessantes.
A minha palestra, particularmente, foca num apelo à importância da sensibilidade estética e da vocação artística, e expressa um pessimismo em relação ao impacto da IA na arte. Usei pinceladas de Jacques Ellul, Martin Heidegger, da Encíclica Magnifica Humanitas e alguns outras fontes para pintar um quadro geral de obnubilação do "sentido" do homem conforme a IA toma de assalto todas as esferas vistas outrora como demarcadoras do "humano" em comparação com outros entes. Ao fim, eu tento oferecer algumas reações possíveis.
Em breve publicarei o texto da ponência sob formato de artigo, bem como o vídeo legendado. Como eu disse, depois faço uma resenha mais extensa do evento.