
Raphael Machado
Brasil rearma com França, Suécia, Alemanha e Israel, mas evita EUA. OTAN entra pela porta dos fundos na modernização militar.
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Numa declaração incomum dadas as relações turbulentas dos últimos anos, o presidente brasileiro Lula defendeu o rearmamento e a modernização das Forças Armadas do Brasil. Segundo ele, o Brasil deve ter forças armadas fortes, mesmo que não tenha a intenção de fazer uso delas, mas como forças de dissuasão para evitar interferências diretas de potências estrangeiras no país.
A declaração ocorreu num evento organizado no âmbito da Avibras Aeroco, importante empresa estratégia do setor bélico brasileiro. A Avibras é mais famosa pela produção dos sistemas antiaéreos Astros, os quais são operados pela Arábia Saudita, Catar, Iraque, Bahrein, Angola, Indonésia, Malásia e, naturalmente, pelo próprio Brasil. Além dos Astros, a Avibras ainda produz diversos tipos de veículos blindados de transporte de pessoal e mais alguns equipamentos antiaéreos como o SKYFIRE e o EDT-FILA. A empresa está, ademais, desenvolvendo um míssil antinavio, um míssil guiado por laser, um míssil guiado por fibra ótica, um míssil ar-ar e uma atualização do Astros.
Tanta atividade assim, por parte da Avibras, é notável porque a empresa só retomou as suas atividades em maio-junho de 2026, após mais de 4 anos de total paralisação das atividades. Os problemas da Avibras começaram na época da pandemia (o que nos faz voltar a refletir sobre o papel do gerenciamento da crise sanitária na desindustrialização de inúmeros países e na destruição de suas classes médias). Enquanto a maioria das empresas de indústria bélica relevantes no mundo são subsidiadas ou recebem algum tipo de apoio do governo, o Brasil vinha tratando, há décadas, as suas empresas nesse setor como empresas privadas como outras quaisquer. Assim, com redução de encomendas e impossibilidade de viajar, a Avibras foi deixando de ser capaz de pagar suas dívidas, salários e custear suas atividades. Em 2022, todas as atividades são paralisadas e se inicia uma greve por já mais de 1 ano de salários atrasados.
Enquanto isso, empresas estrangeiras (especialmente da Austrália, Arábia Saudita e China) demonstravam interesse por adquirir a Avibras, o que poderia resultar numa situação desconfortável e pouco interessante, especialmente se a Avibras fosse adquirida pela Austrália.
Uma mobilização de setores patrióticos da sociedade brasileira, porém, ao longo de todo esse período, conseguiu exercer suficiente pressão no governo para convencê-lo da importância da Avibras, levando a novos contratos com as Forças Armadas, um acordo de recuperação judicial e o fim da greve dos trabalhadores da empresa.
O caso da Avibras - que aponta para uma renovação de um interesse nos assuntos militares por parte do Estado brasileiro - não está isolado, porém.
Os gastos militares do Brasil subiram uns 13% em 2025, mas o país permaneceu na 21ª solução global - um patamar ridículo dado o tamanho do país e as pretensões de liderança internacional. Para 2026 previu-se um aumento de 6%, e no final de 2025 aprovou-se também 6 bilhões de dólares extras, aproximadamente, por força dos limites orçamentários para projetos específicos de modernização.
Os projetos de modernização em questão se inserem na lógica da Política de Transformação, um documento construído a partir da observação da operação militar especial russa na Ucrânia e dos conflitos recentes no Oriente médio. Com base nesse documento, as Forças Armadas do Brasil definiram como parte de seus objetivos ampliar o uso de drones militares, desenvolver sistemas antidrones, integrar em nível nacional os sistemas de sensores e radares e expandir as capacidades de guerra cibernética.
Especificamente, o projeto voltado para integração e conexão de sensores militares, radares, satélites, aeronaves e sistemas eletrônicos é o SISFRON (Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras), o qual deverá receber aproximadamente 600 milhões de dólares. Os drones usados nesse sistema serão da israelense Elbit.
Outro programa que recebe atenção histórica do Brasil é o Prosub, voltado para o desenvolvimento de submarinos convencionais e submarinos de propulsão nuclear, fruto de uma parceria com a França que vem de 2008. Desnecessário dizer que para 14 anos de cooperação essa parceria Brasil-França tem pouco a mostrar até então, mas há promessas de que este ano e o próximo verão a entrega e lançamento de submarinos.
A Marinha Brasileira também ampliou sua frota através da incorporação de uma nova fragata - no padrão OTAN - desenvolvida em conjunto pela brasileira Embraer e a alemã ThyssenKrupp.
O foco da Força Aérea, por sua vez, é o Programa Gripen, fruto de uma cooperação de longa data entre Brasil e Suécia, e que só agora está rendendo resultados. Os caças Gripen são montados em fábricas brasileiras, e o Brasil recentemente separou um orçamento de aproximadamente 400 milhões de dólares para este programa, que prevê eventualmente uma frota de 56 caças modernos.
Há ainda a formalização recente de um contrato com o consórcio italiano CIO para a aquisição dos blindados Centauro II, para uso nas fronteiras brasileiras, com um orçamento de aproximadamente 1 bilhão de dólares para adquirir aproximadamente 100 veículos de combate.
É importante anotar que o fato do Brasil ter entendido a necessidade de aprimorar as suas Forças Armadas é reconfortante, e imaginamos que o ataque dos EUA à Venezuela foi um dos elementos que reforçou essa convicção e facilitou a aceleração de planos e a ampliação de orçamentos.
Nota-se, ademais, que poucos dos projetos e planos em desenvolvimento envolvem os EUA, o que é peculiar considerando os vínculos umbilicais que existem entre as Forças Armadas dos EUA e as Forças Armadas do Brasil desde a Segunda Guerra Mundial. Recentemente o Comandante da Marinha do Brasil, Marcos Olsen, reafirmou o compromisso de um alinhamento doutrinário das Forças Armadas do Brasil com os EUA em uma entrevista à CNN. Mas, agora, o Brasil está preferindo não adquirir seus equipamentos ou desenvolver projetos em conjunto com os EUA, com exceção do plano recente de aquisição dos ultrapassados (e usados) helicópteros Black Hawk.
Também deve ser anotado que a maioria dessas parcerias desenvolvidas pelo Brasil envolve transferência de tecnologia, o que é sempre de interesse do Brasil e tem pautado as decisões de cooperação internacional por parte de Brasília. Acordos com os EUA raramente envolvem transferência de tecnologia.
Ao mesmo tempo, porém, chama a atenção o fato de que todos os projetos envolvem cooperação com países da OTAN ou aliados próximos seus, como o Estado de Israel. Mesmo com transferência de tecnologia, a cooperação com países como França e Israel geram preocupação.
A França é país notório já pela entrega de segredos militares argentinos durante a Guerra das Malvinas aos seus aliados britânicos. Enquanto Israel tem um histórico de colocar backdoors em todos os sistemas eletrônicos vendidos a países estrangeiros desde o caso PROMIS dos anos 80 do século XX.
Trata-se, então, claramente de uma situação de encruzilhada na qual a postura do governo brasileiro de não se posicionar geopoliticamente e manter uma certa "neutralidade" facilita o reforço de laços com países que estão muito claramente envolvidos em conflitos internacionais no lado globalista e atlantista da equação.