30/07/2026 strategic-culture.su  10min 🇸🇹 #321803

Como os índios tiveram êxito onde a Inquisição falhou

Bruna Frascolla

Judeus perseguidos fugiram para o Brasil, viraram bandeirantes e se misturaram aos índios. A Inquisição perdeu, os tupis venceram.

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Uma diferença relevante entre Portugal e Espanha no Renascimento é a maneira de se relacionar com os judeus. Seria espantoso se essa diferença não tivesse nenhum impacto sobre as nacionalidades ibero-americanas.

Em 31 de março de 1492, a Espanha expulsa aqueles que não quiseram se converter à fé católica. É o mesmo ano do descobrimento da América e do início do Siglo de Oro. Para os judeus, o evento teve um impacto emocional análogo ao Holocausto no século XX. Tornou-se uma obsessão. Alguns dos cabalistas expulsos da Espanha foram para a Terra Santa e desenvolveram a cabala luriânica, que transforma o exílio numa experiência cósmica. Essa cabala se populariza por todo o mundo judaico no século XVI e lança as bases para a histeria de massa do sabataísmo, ocorrida no século XVII.

Portugal, por outro lado, é uma espécie de Catalunha que deu certo: uma pequenina pátria navegadora e mercantil que fala um idioma próprio e não quer se submeter a Castela. Enquanto o mar da Catalunha foi interditado pelos muçulmanos, o de Portugal estava por descobrir. A uma pequenina pátria mercantil convém dispor do capital humano judaico. Assim, só por pressão espanhola, em negociação da mão de Isabel de Castela, Portugal acaba formalmente com o judaísmo em seu território: embora o contrato exigisse a expulsão dos infiéis, Manuel I de Portugal dificultou a saída dos judeus e os batizou à força em 1497.

Se no Brasil estamos familiarizados com a lei " pra inglês ver", expressão surgida quando o Brasil proibiu o comércio transatlântico de escravos a mando da Inglaterra e não moveu nem uma palha para fazer a proibição valer, em Portugal houve, então, uma expulsão "para espanhol ver". É de se suspeitar que a institucionalidade caótica brasileira tem origem em Portugal, o país pequeno que fica driblando as normas impostas pela poderosa Espanha em vez de partir para um conflito aberto. Num país do tamanho do Brasil, isso tem desdobramentos próprios, já que pode ser usado também pelos grandes contra os pequenos, inclusive (ou sobretudo) em demandas minoritárias. Por exemplo: se um grupo de sanitaristas fizer um escândalo insistindo que melancia causa malária, os políticos, para não desagradarem nem os sanitaristas, nem os comerciantes, podem passar uma  lei anti-melancia e não tomar nenhuma medida pela sua aplicação - caso ocorrido em Rio Claro, onde só se derrubou a lei anti-melancia depois de 130 anos, ao dar-se conta da sua existência.

Essa bagunça costuma aparecer na sociologia brasileira com o nome de "homem cordial", dado por Sérgio Buarque de Holanda. Para desgosto dos marxistas que querem revolução e dos liberais que querem a impessoalidade na administração pública, o Brasil tende, a um só tempo, ao apaziguamento dos conflitos e à informalidade no trato com o Estado.

A Inquisição Portuguesa foi criada tardiamente, e era possível ser um criptojudeu (isto é, um marrano) com mais facilidade em Portugal do que na Espanha. Quando Portugal passa ao domínio espanhol em 1580, seus cristãos novos entram sob jurisdição da Inquisição Espanhola, que, ao contrário da portuguesa, era uma instituição séria. Por conseguinte, o melhor lugar para viver como um criptojudeu eram as possessões ultramarinas portuguesas, aonde a Inquisição ia uma vez na vida. Além disso, como as leis de pureza de sangue dos portugueses eram "pra inglês ver", os cristãos novos, sinceros ou não, poderiam ter chances de ingressar na Igreja via Portugal.

Na segunda metade do século XX, a historiadora Anita Novinsky conseguiu encontrar as origens judaicas de duas personagens antagônicas: São José de Anchieta (1534 - 1597) e Raposo Tavares (1598 - 1658). O santo era um espanhol das Ilhas Canárias cuja ancestralidade materna era marrana, cheia de processos da Inquisição. (Como os judeus não se importam com a pureza do sangue, mas só com a matrilinearidade, então para eles Anchieta era judeu; Santa Teresa d'Ávila e São João da Cruz, não. É impossível que a Inquisição não soubesse disso.) Recusado por um seminário na Espanha, Anchieta foi para Portugal, onde ingressou na Companhia de Jesus. Obteve tanto êxito que veio ao Brasil fundar aquelas que hoje são suas duas maiores cidades (São Paulo e Rio de Janeiro) e evangelizar os índios. É o autor da gramática do tupi, a principal língua indígena da história do Brasil, e escreveu peças e poemas nesse idioma.

Quão diferentes eram os jesuítas portugueses dos espanhóis ? Provavelmente não há como encontrar nenhum documento explicando uma coisa decorrente da informalidade. No entanto, ao estudar  a vida de Guillaume Postel (1510 - 1581), o principal cabalista cristão da história, chamou-me a atenção que o ponto de inflexão em sua biografia foi o contato com os estudantes jesuítas na França, no Colégio de Santa Bárbara. Lá, ele aprendeu português conversando com os colegas, arrumou quem lhe ensinasse hebraico e fornecesse escritos cabalísticos. Se os espanhóis eram restritivos demais, os portugueses eram liberais demais. E para o Santo Anchieta, só havia uma via.

Quanto a Raposo Tavares, trata-se de um importante bandeirante. Os bandeirantes eram, no princípio, os aventureiros portugueses que se enfiavam nas selvas mais remontas do Brasil para procurar ouro e se esconder da Inquisição ou do governo. No século XVI, a região mais remota e afastada do governo era São Paulo.

Por quase toda a costa brasileira, os portugueses encontraram a tribo tupi, que tinha a peculiaridade de oferecer esposas para colecionar genros. Quando um guerreiro tupi casava, ele ia morar com a sogra e viver sob a autoridade do sogro, que era o morubixaba (cacique) poligâmico. Como os morubixabas viviam em guerra uns com os outros, o negócio era usar as filhas para atrair guerreiros; e quando um guerreiro era valorizado demais, ganhava várias esposas e se tornava ele próprio um morubixaba. Como os portugueses tinham armas e metal, eram genros muito valorizados, e assim se tornaram morubixabas.

Os aventureiros portugueses em São Paulo e os seus descendentes são os principais responsáveis pela expansão de facto do Brasil sobre as terras de Castela. Com sua parentela indígena e falando (em poucas gerações) o tupi como primeira língua, os bandeirantes percorriam áreas de difícil acesso escravizando índios, fazendo comércio, emprestando a juro e procurando ouro. Foram eles os responsáveis por descobrir, no final do século XVII, o ouro das Minas Gerais. E queriam fazer tudo isso sem pagar impostos à Coroa.

"Descrentes e iconoclastas,"  diz Anita Novinsky, "os bandeirantes demoliam as igrejas, quebravam as imagens sagradas e matavam os jesuítas. A historiografia brasileira tem atribuído a fúria devastadora com que os bandeirantes se lançaram contra as reduções jesuíticas a motivações econômicas, como a posse dos índios e a busca de metais preciosos. Sem excluir esses interesses, um mergulho nos documentos revela que uma forte razão ideológica os movia, pois quase todos os bandeirantes tinham membros da família nos cárceres inquisitoriais." Dado que os jesuítas também eram judeus étnicos, podemos ver em São Paulo uma grande briga de judeus, mais ou menos como vivem brigando hoje os sionistas e os antissionistas.

Pois bem: se a Espanha, Portugal e a Inquisição não conseguiram fazer os judeus mais recalcitrantes largarem o judaísmo, quem merece o troféu, no frigir dos ovos, são os índios tupis. Afinal, após pouco tempo vivendo na mata com índios nus que ofertavam mulheres e pediam armas, os bandeirantes não conservaram nem a língua portuguesa, quanto menos a religião judaica, que era transmitida pela matrilinearidade. A paixão pelo tupi, nem era exclusividade dos judeus anticatólicos, pois os jesuítas em São Paulo eram grandes entusiastas da língua, que só caiu em desuso no Brasil após a sua expulsão, no século XVIII, pelo Marquês de Pombal. Hoje os caipiras, os descendentes dos bandeirantes, fazem  romarias para Aparecida, a Padroeira do Brasil.

Não seria Anchieta um Boas avant la lettre ? A habilidade para compreender as línguas e costumes de povos estranhos não será uma tradição judaica sistematizada e laicizada no século XX pelo judeu Franz Boas, pai da antropologia cultural ? A diferença entre o judeu e o brasileiro, porém, é que vamos bisbilhotar os estrangeiros na condição de senhores da terra e, em princípio, abertos à mistura.

O judeu tem fama de errante, e encontrou aqui índios nômades. O surgimento do mestiço que percorre grandes porções de terra não se restringe à área das Bandeiras: todas as regiões do Brasil são assim, e o Brasil se homogeniza por meio da incessante migração interna. Essa, me parece, é uma característica que diferencia o Brasil dos seus vizinhos de língua espanhola, e que o capacita para ocupar e integrar os rincões mais remotos.

Vamos a algumas histórias ilustrativas. No início do século XX, o Brasil anexou o Acre, um território até então pertencente à Bolívia. Era uma área de difícil acesso que os bolivianos alugaram para uma chartered company dos EUA com os brasileiros dentro. Os brasileiros eram em sua maioria provenientes do Ceará, que está há uns 3 mil quilômetros de distância em linha reta, e haviam ido para lá atrás de borracha. A revolta dos brasileiros foi liderada por um gaúcho, cujo estado, na fronteira com o Uruguai, dista outros 3 mil quilômetros em linha reta. Imagine-se a capacidade de comunicação informal para, num tempo de muito analfabetismo e anterior ao rádio, os brasileiros do Nordeste e do Sul do país saberem do Acre - e mais, saberem como chegar lá, atravessando a Floresta Amazônica sem estradas nem ferrovias. O ciclo da borracha também atraiu para a Amazônia judeus sefarditas vindos de Marrocos.

No presente século, uma área indígena do Peru, na fronteira com o Acre, desde 2005 insiste que  quer ser anexada pelo Brasil por causa da maior presença do Estado na região. No Brasil reclamamos muito do abandono dos índios e da Amazônia, mas os índios peruanos da Amazônia querem ser brasileiros. Eles até  falam português e usam o real.

Falando em Peru, no final do século XX, uma grande dificuldade enfrentada por Fujimori para combater os senderistas era que o exército era composto por limenhos de língua espanhola, enquanto o Sendero atuava nos rincões povoados por índios de língua quéchua. O Exército ia ao local e não sabia diferenciar índios senderistas de não-senderistas, distribuindo tiros para todos. A situação foi contornada quando o General Huamán Centeno, de língua quéchua, conseguiu respaldo do Estado para se articular com os índios não-senderistas e montar milícias de autodefesa. Se os limenhos fossem iguais aos brasileiros, já teriam ido em massa bisbilhotar os índios de língua quéchua (fazer comércio, ir a festas, namorar) e estariam inteirados da identidade das lideranças locais pró e contra Sendero, em vez de chegarem lá sem saber de nada só quando a área já estava tomada.

No Brasil do início do século XX, o estado do Mato Grosso (uma área de formação bandeirante) não tinha comunicação com a capital, o Rio de Janeiro. Para sair do Mato Grosso e chegar até o Rio, era necessário bordejar o Paraguai por via fluvial, chegar ao Rio da Prata e contornar a costa marítima brasileira. No caminho terrestre havia índios brabos (i. e., que queriam permanecer isolados culturalmente) e áreas alagadas com crocodilos (o Pantanal). Quem estabeleceu a comunicação via telégrafo entre o Mato Grosso e o Rio de Janeiro foi o militar pacifista Cândido Rondon, um mestiço que dominava várias línguas indígenas e fazia as vezes de antropólogo para interagir com tribos desconhecidas. Ele instalou os postes do telégrafo com a ajuda voluntária dos índios brabos que ele persuadiu sem disparar tiro nem flecha. Essa façanha está disponível em mais de um idioma em sua biografia por Larry Rohter.

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