
Raphael Machado
EUA legalizam aborto de bebês de 9 meses em 10 estados. Nenhum país europeu permite. O Ocidente caminha para o infanticídio.
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Em suas relações com o resto do mundo, especialmente nos últimos 2 séculos, o Ocidente norte-atlântico adotou uma postura de superioridade moral - superioridade esta derivada de seus princípios racionalistas e individualistas - frente às outras civilizações do mundo, vistas como bárbaras. Falou-se num "fardo do homem branco", como um suposto dever de elevar os tais "povos bárbaros" ao patamar civilizacional supostamente superior do mundo ocidental.
Se acelerarmos o relógio para o futuro, porém, e descascarmos o Ocidente de suas luzes neon e suas superfícies cromadas, a postura de "superioridade moral" parece difícil de sustentar, com um dos exemplos mais óbvios da profunda crise ocidental sendo o esforço avassalador, incomensurável, que o Ocidente faz para ampliar as possibilidades de assassinar crianças.
Em termos numéricos absolutos, conforme informações da OMS e do Instituto Guttmacher, a América do Norte e a Europa Ocidental, juntas, abortam anualmente aproximadamente 1 milhão e 500 mil fetos.
Mas a visão puramente numérica não nos permite contemplar o fundo do abismo.
A maioria dos países do mundo permite o aborto, mas sob condições específicas, como o risco à vida e à saúde da mãe, com vários países acrescentando, ainda, o fato da gravidez ser fruto de estupro ou o feto padecer de alguma deficiência grave. Tanto nesses quanto em países mais liberais em relação a esse tema, porém, há limites de tempo para a prática do aborto; ou seja, o aborto, nos casos permitidos, é permitido numa janela específica de tempo, com os limites impostos indo entre até 7 semanas ou até 17 semanas após a última menstruação, por exemplo.
Naturalmente, desde uma perspectiva conservadora, criticamos que alguns países permitam aborto por razões "socioeconômicas" ou sem qualquer tipo de justificativa, apenas pela livre e espontânea vontade, mas ainda assim, mesmo estes países impõem um limite de tempo.
O motivo por trás do estabelecimento de limites de tempo se fundamenta no desenvolvimento do embrião e os estágios pelos quais ele passa. Diferentes entendimentos existem sobre quando começa a "vida", ou quando o feto se torna "pessoa" (ainda que potencial), ou então quando ele está suficientemente desenvolvido para sentir dor, e as discussões em torno desses "estágios" influencia o debate público sobre "até quando" se pode realizar um aborto.
Mas eventos recentes nos EUA nos fazem refletir sobre se o debate sobre aborto que se desenvolve naquele país, e no Canadá, tem realmente a ver com "direitos das mulheres" ou se ele atende a um estranho impulso misopédico do "Extremo Ocidente".
Em junho de 2022 a Suprema Corte dos EUA rescindiu a decisão no caso Roe v. Wade que servia como precedente para garantir, a nível federal, o acesso ao aborto como direito constitucional até aproximadamente os 6 meses de gravidez. Isso significava que o debate sobre aborto seria remanejado para os estados, que poderiam, então, legislar segundo seu próprio entendimento desde que não contrariassem alguma eventual legislação federal.
Com o fim desse precedente, os estados seguiram caminhos diversos conforme as tendências políticas pré-existentes. Boa parte do sul dos EUA considera o aborto completamente ilegal, exceto por casos como risco de vida da mãe ou estupro. Gradualmente, por outro lado, os redutos democratas estão liberalizando os direitos de aborto.
E essa liberalização está sendo promovida exatamente pela ruptura de limites que são sustentados mesmo nos países mais "progressistas" em relação ao aborto, a restrição que autoriza abortos apenas no "começo" da gravidez.
Há alguns dias, a governadora Maura Healey, de Massachusetts, assinou uma lei que elimina o limite de tempo de 24 semanas para a realização de aborto, tornando possível, portanto, que mulheres abortem bebês com 7, 8 ou 9 meses de gestação, o chamado "aborto tardio". Com isso, Massachusetts se une a Alaska, Colorado, Maine, Maryland, Michigan, Minnesota, New Jersey, New Mexico, Oregon, Vermont, e Washington, D.C., estados que já autorizavam o assassinato de bebês de 9 meses de gestação.
Aqui vale a pena reiterar uma certa informação: os países europeus têm a má fama de serem mais liberais que os EUA na questão do aborto, mas nenhum país europeu autoriza aborto aos 8-9 meses de gravidez. A maioria, aliás, só autoriza até o 3º mês. Mesmo a URSS, constantemente alvo de duras críticas por parte de conservadores ocidentais por suas políticas pró-aborto (após a morte de Stálin), só autorizava o aborto até a 22ª semana.
Para que se entenda a dimensão do absurdo que começou a acontecer nos EUA, no 1º mês de gestação o embrião já tem coração bombeando sangue, no 2º mês seu corpo já possui formato humanoide e se movimenta por conta própria, no 3º mês já se pode determinar seu sexo e ele já faz movimentos respiratórios, no 4º mês ele já dorme e acorda, faz caretas, pisca e a mãe já sente "chutes", no 5º mês ele já ouve e reconhece a voz da mãe e outros sons, no 6º mês já possui reflexo desenvolvido e já é capaz de sobreviver a um parto, se tiver ajuda de uma UTI neonatal, no 7º mês já tem paladar e já sonha, no 8º mês já responde a estímulos luminosos.
Bebês que nascem prematuros não nos permitem mentir: não há qualquer diferença visível e externa entre eles e um bebê que nasceu após 9 meses de gestação. O que Massachusetts e outros 9 estados dos EUA estão autorizando é o livre assassinato de bebês completamente viáveis. Por que ? O que explica, por exemplo, o sadismo sociopata das mulheres que sorriam eufóricas ao lado da governadora Haley enquanto ela assinava a legalização do "aborto tardio".
Naturalmente, a argumentação abortista passa por narrativas feministas como a questão da "autonomia do corpo da mulher", com o feto sendo visto como um parasita que não deve ser visto como vida autônoma por sua dependência em relação à nutrição oferecida pelo corpo da mulher.
Mas um argumento como esse não pode ser, facilmente, estendido ao bebê após o nascimento?
De fato, é nesse sentido que vai o pensamento de filósofos ocidentais como Peter Singer (vinculado a Epstein através de amigos em comum, como Steven Pinker) e Michael Tooley. Para eles, a "pessoa humana" é definida por suas capacidades cognitivas de autoconsciência, raciocínio e desejo de continuar existindo, o que, para eles, inexiste no bebê recém-nascido. Singer chega a comparar a morte de um bebê à morte de um peixe. Mais recentemente, os filósofos Alberto Giubilini e Francesca Minerva levantaram uma defesa do infanticídio com base nos argumentos de Peter Singer.
E, de fato, considerando que os EUA estão legalizando o aborto de bebês com 9 meses de gestação (e que Canadá e Holanda já autorizam a eutanásia de bebês) quanto tempo falta para a legalização do infanticídio?
Talvez o recente caso de Lindsey Clancy, mãe que assassinou com requintes de crueldade seus próprios filhos pequenos, nos dê uma indicação sombria. Postagens em redes sociais defendendo Clancy chegam às centenas de milhares de likes e uma arrecadação de fundos para ajudá-la chegou à cifra de quase 1 milhão de dólares.
Seria possível falar na "epsteinização" de uma sociedade como um todo e não mais numa "classe Epstein" ? Se sim, talvez seja isso que estejamos vendo nos EUA.